Você / Atlântico Sul

a primeira coisa afetiva que eu te disse foi sobre o mar, sobre o dia em que notei que o mar se movia, e como isso muda tudo. o dia em que notei que as coisas me respiram assim como fazem marolinhas na areia. e era muito cedo para dizer coisas assim e você riu e achou talvez um pouco bonito.

e agora você me manda uma mensagem dizendo que também já quis ir embora, e eu não imaginei isso, no primeiro dia, com você sentada no banco rosa da cozinha, tentando decidir chá ou café. foi fácil esquecer (ou nem notar) que você não era só um par de olhos me observando do outro lado do quarto.


sonhei que éramos há muito tempo um casal
trafegávamos uma rua pequena
uma praça pequena
tudo muito escuro, quieto e imóvel
e apenas a sensação de que o mar existia grande lá trás
e havia um sentimento de tudo bem, estamos juntos
o mundo é enorme, por tantas coisas já passamos
estamos juntos nisso tudo

e na ligação você disse,
que lindo bê, isso é muito lindo
e eu estava indo regar as plantas nessa hora
e achei engraçado que você usou um tom
que nunca ouvi antes


e você chorou a primeira vez pelo telefone, dizendo que se sentia um fracasso, e eu achei isso um absurdo, e tentei te consertar como se fosse um texto mal enredado, uma short-fiction que não fecha, apontando os erros na narrativa, nas pequenas poéticas, e foi aí que você chorou, e depois me disse que tudo bem.


você deve estar agora, em algum deserto negro com luzes pontilhadas aqui e ali, e talvez dê para ver algumas poucas estrelas, alguma serra contra o horizonte azul pontilhado de estrelas, e eu queria falar sobre andrômeda.


deixa eu te contar de outro sonho:

você tem uma saia desbotada
e eu presto mais atenção na malha de luzes
no farol refracional de um carro
novinho e reluzente

ele contrasta muito com essa escada
cimento arenoso e chicletado

você é meio-tom mais grave que outras mulheres
soa mais madura
me explica sobre a constelação de andrômeda
suavemente desliza os dedos nos meus

apoio a cabeça sobre os joelhos
penso que podemos usar faróis de sedã
para lembrar da luz refracionária de andrômeda
que faz as estrelas parecem pontudas aqui na terra


o mar em 2010 era sempre marrom, mas nem sempre dava pra ver, por que eu caminhava de noite. havia um vento especial naqueles dias, ou ele sempre foi especial e eu nunca notei.

um dia acordei tão melancólico que sentei na calçada e desenhei um mapa das ruas até o mar. um mapa afetivo, as calçadas mal acabadas e prédios esquisitos. eu disse um dia que não deixaria aquela cidade até ama-la, talvez então ali tenha sido uma pequena nota de despedida.

o que eu queria te dizer é
ali foi a primeira vez que aprendi a amar alguma coisa
a amar como ação
prestei atenção e sentei na rua em silêncio
e descobri que é preciso estar presente por um segundo
olhar pelo menos mais uma vez e com atenção alguma coisa
pra conseguir dizer adeus
um adeus de verdade


você está agora em algum breu brasileiro perdido na estrada
e eu queria pedir desculpas


perdi dez quilos em alguns meses, mas ainda gostava de ouvir música enquanto lavava louça sozinho a noite. tentei cortar os pulsos de forma tosca, e de vez em quando ria de alguma série no laptop na cama já funda.

e agora eu consigo sentir os pelinhos felpudos que se acumulam no fundo do bolso da calça de algodão. e noto como em todo prédio tem gente que usa lâmpadas laranjas e tem gente que usa as brancas.

e eu queria salvar você também.


o dia em que eu senti que o mar respirava foi muito depois dos dias ruins, ali descobri alguma coisa importante, que não sei explicar. o orla sempre me pareceu um refúgio, o vento sempre morno te abrindo pro horizonte, o mar gigante, mas ao seu lado, manso, você com os pés firmes na areia, ele respirando eterno.

tem algo daí que eu gostaria de te dar, acho que no sonho eu te levava para o mar.


talvez trovoe e chova na estrada, e não dê para ver andrômeda na escuridão, e talvez se eu estivesse aí, te diria que agora alguns faróis me lembram andrômeda, mesmo sem saber como ela se parece.

e talvez com a chuva, a gente de repente imaginasse que estamos indo para o mar, algum mar pertinho daqui, algum mar nosso.


aqui também tem o atlântico, mas tem que se caminhar bem mais que 20 minutos pra chegar até ele, e não tem a brisa morna perpétua, não dá pra nadar as onze e meia da noite de uma quarta-feira qualquer como fiz antes.

mas podemos sentar na areia, tirar uma foto com aquelas lentes gigantes, e afundar até o tornozelo no atlântico sul.

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