.txt em carga eletromagnética

olho a areia branca subindo o morro
e um chicote eletromagnético estala na mais alta atmosfera

mas na época não notei bem o tom da areia, que deve ser creme
nem pensava sobre eons e eletromagnética
nem pensava que em éons tudo nosso é margem de erro

o que restou foi essa imagem, tenho catado fragmentos

se o que acontece “de fato” é margem de erro, o que é o que sobra?
espero que um pequeno poema, aberração do DNA
a vida surgindo do erro primordial


é a primeira vez em uma centena de dias que para de chover
tem um sol bom dourando nuvens complicadas em todo canto
você tem o rosto simples de quem sei estar feliz

quero amar com fervor cada um desses instantes, mas quando vejo já me distraí, e acordo sozinho na cama molhada, a janela ficou aberta


te convido para sair, te contemplo no meio da estrada
o barro alaranjado e largo
a poeira persistindo no ar, na curva que um automóvel fez
a sua direita um sabugo de flor com cheiro de papel rústico
a fina faixa de dourado dividindo o céu todo lilás azul
em mim o terço que agora carrego sempre
uma distância de metros, mas tudo está parado
e aqui parece muito íntimo

o que vai sobrar de nós de agora?
e o que de frente para trás vou incluir nesse momento?


em breve tudo isso se acaba
o facebook acaba
o whatsapp acaba
a julia envelhece
minha mãe morre
meu irmão se distancia
curitiba muda
a carga eletromagnética que lembra desses arquivos em .txt se esvai de discos rígidos
algo a ver com física quântica me dizem
física quântica não perdoa nem os .txts


nacos de voz alinhados no papel
ou embaralhados em eletromagnética .txt
é uma tentativa de quê?

de ficar mais íntimo de tudo

a gente nasce e fica tão solto no espaço
como se o mundo, qualquer pedaço do mundo,
fosse algo longe lá fora
então tentamos tatear as coisas como fazemos em novas conversas com novos amigos
então você gosta do quê? ah é? eu também!
isso aí dentro de você eu de alguma forma tenho também
então o céu faz cores, e penso "amarelo"
e, tá vendo, tenho cores também!


me sinto sempre tão só, eu queria popular essas ruas de pequenas poéticas, dizer olhá lá, tenho pequenos afetos em cada esquina. mas te vejo e conversamos apenas bobagens, e vou ficando mais velho, ficando mais silencioso, e nunca me vem a palavra, nunca me vem o gesto, a ideia. aquele convite sutil para entrar, aquele momento de consciência e conforto de que se habita o mesmo espaço que o outro, aquele momento em que se senta a mesa e pode-se finalmente conversar.

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