Três da manhã, terceiro andar

As três da manhã você ligou e aos quarenta-e-cinco minutos disse que me amava. Disse que não queria mais viver, que queria ir embora. Respondi sobre não ter solução, algo sobre a miséria do mundo ser infinita, que não melhora. Completei que a força e a vontade não vem dos fatos crus, mas de algo interno, e que é possível ter gosto e potência em meio ao caos da vida.

Você disse que eu era o único que poderia ouvir seu desespero e isso me preocupa até hoje. Lhe falei muitas coisas e depois, sem conseguir dormir, escrevi com gouache azul nas paredes o que faltava e não pude.

Se eu disser
Que a sua existência fortifica a minha
Você fica?

Eu lhe disse muitas coisas e depois pintei tantas mais nas paredes. A verdade é que eu sempre quis que o que está em letras grandes no meu antigo quarto fosse verdade.

I'm your protector
Color your life

Mas nunca foi. Por que nas noites ruins quando você e todas as outras já tinham ido embora, não pude deixar de notar que moro no terceiro andar, e lembrar daquelas janelas. Na noite que de joelhos na cama soluçava e achei estúpidas e gigantescas aquelas janelas que no segundo andar mostravam o breu da floresta. De joelhos eu engasgava e me perguntava por que janelas tão grandes se não podem dilacerar nervos. Janelas de segundo andar. Janelas impotentes como eu.

E agora eu moro no terceiro andar. E na terceira vez, aos quarenta-e-cinco minutos, você disse que me amava, e não ligou mais.

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