Sangue em Poliéster

Seu pulso aberto e sua mãe só soube dizer sobre os lençóis molhados.


O templo dos mitos onde os miseráveis estão sempre a porta contando mentiras e pedindo dinheiro.


Quantas mães vão colocar em pés macios os sapatos que lhe calejaram o tornozelo?


Me abraçava e chorava, as coxas molhadas e cama vermelha mais uma vez, e o suor e as memórias.


Com o torpor e as vibrações do gozo ainda nos meus músculos não achei nada, mas você tinha as memórias.


Descobri então que é mais barato comprar novos lençóis que mandar tirar sangue de poliéster.


Não poderia colocar seu sangue em sacos plásticos de mercado, não você que é tão poesia. Nunca lavei tanto sangue com tanto afeto.


Quantas cicatrizes terá ela por baixo daquelas estranhas roupas?


Você chorava baixinho enquanto as pessoas apressadas passavam a nossa volta e não conseguia deixar de sentir seu pulso nu em minhas costas, "não quero ir pra casa".

"Não quero ir pra casa"

Quantas vezes me disse isso?


Ouvir ela reclamar do preço das pílulas que mantinham aqueles malditos lençóis limpos. Não sei que desgraça é essa de pouca poesia que acomete esses cheios de mitos que gostam de construir portas gigantes pra sentir alguma coisa passando por elas.


E sim, eu ouvi ela dizer que você não merecia meu afeto pelo peso ganhado por anos de pílulas mágicas, e me desculpe, eu não sou assim, mas quis que sua carne fosse implodida sobre o peso dos mitos e daquelas malditas portas por quais ela passava todo domingo.

Mas ela implodiu você.


Eu queria que aquelas imensas portas colapsassem, que o mundo manifesto rasgasse sua carne bem real.

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