Quão amplo sonhamos? Uma aspiração para um novo ano

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A dança - Henri Matisse, 1869-1954

Quando paro para me deliciar em imaginar um futuro, penso apenas em casa bem decorada e quitada, relacionamento estável, e boas viagens? Ou também incluo um país sem miséria, uma cultura de relacionamentos românticos mais saudável, comunidades cada vez mais próximas e acolhedoras?

Quando faço planos, penso só na minha vida, meus contatos, possibilidades, pendências, desejos, ou imagino também possíveis rumos para a minha cidade? Quando planejo meu ano, sonho possibilidades para mim apenas ou para toda a minha rede?

Quão amplo nós sonhamos? A nossa vida? Nosso grupo? Nosso movimento? Nossa cidade? Nosso estado? Nosso país? Nosso continente? A civilização?

Nos interessar nos leva a ver de forma ampla. Quem nunca fez um corte de cabelo diferente, comprou uma blusa especial, um tênis, e de repente começou a ver isso em todos os lugares? Se você começa a pensar na existência e bem-estar dos outros moradores do seu prédio, de repente nota que de vez em quanto tem reunião do condomínio para se debater assuntos importantes. Se você deseja que os amigos consigam superar aflições psicológicas, provavelmente vai notar quando alguém próximo começar a dar sinais de depressão.

Nos sensibilizar para essa interconectividade e se interessar pelo mundo ao nosso redor nos faz mais atentos a suas manifestações e convites.

Estamos todos juntos

É óbvio que sozinhos temos muitas limitações, mas quanto fazemos uso da sabedoria de que estamos em parceria com o mundo inteiro? Se vemos todos aqueles que fazem parte do nosso quotidiano como apenas peças estáticas que estão ali por acaso, entramos num grande engano de pensar que as decisões e visões deles não nos afetam.

Precisamos nos comunicar mais profundamente com todos, estamos terminando a segunda década do segundo milênio e ainda operamos com a mente de família nuclear, como se só os dramas e decisões dos nossos mais próximos importasse para nosso futuro.

Uma pessoa desconectada de um sonho coletivo é uma pessoa perigosa. Ela não apenas é facilmente manipulada, como age sem se sentir parte de uma família. Seu isolamento é a origem de toda a violência — nossa com ela e dela com todos. Observe como estamos recebendo os novos humanos: “Bem-vindos! A gente tá meio sem saber o que fazer, então, sei lá, arranjem um trabalho, se virem, comprem alguma coisa, se distraiam, tentem não enlouquecer. Não sei como podemos ajudar, não sei o que é mais prioritário e benéfico para a nossa comunidade e para o mundo. Tô meio sem tempo, ah, olhem que engraçado esse vídeo aqui, falamos depois!”
‐ Gustavo Gitti, É hora de sonhar coletivamente

Já tem gente sonhando por nós. Grandes empresas aspirando funcionários mais eficientes e baratos, e consumidores cada vez mais ávidos e impulsivos. Diversos grupos esperando recrutar jovens desiludidos para suas guerras ideológicas. Mas quantas vezes sentamos com nossos amigos, familiares, colegas de trabalho e dissemos “estamos vivos, estamos em mundo complexo, para que direção queremos rumar?”.

Olhando atentamente, estamos muito mais próximos do que vemos usualmente. Nos reunimos por referenciais externos de “gosto / não gosto”, mas os aspectos fundamentais da nossa vida, aquilo que mais rege ela, são universais. Queremos ter felicidade e evitar sofrimento. Não tivemos escolha ao existir e vamos em breve morrer. O mundo é complexo demais para o entendermos completamente, e mesmo assim, somos confrontados com a liberdade opressora de às cegas termos de ininterruptamente tomarmos decisões.

Sem essa noção clara da nossa existência comum, acreditamos que o que nos define como indivíduo e nos une a grupos são nossas crenças e interesses. Então as crenças vão mudando e os interesses diminuindo e vivemos sem criar conexões verdadeiramente profundas com quem coexistimos.

Precisamos abrir mais espaços de encontro que não convidem profissionais ou familiares ou amigos, cujo ponto de contato não seja um conjunto de identificações específicas, mas o simples desejo de cultivar uma felicidade mais genuína. Nesse encontro não haverá estranhos nem conhecidos, mas parceiros além de qualquer bolha, que vão se reconhecer imediatamente em nosso chão mais básico. Se você me apresentar seu projeto, talvez eu não me identifique. Mas se você falar como está trabalhando com a ansiedade, estou dentro! Essa é a única conversa que já começamos abertos e iguais.
‐ Gustavo Gitti, O que nos une?

Uma aspiração para um novo ano

Mais do que novos projetos, precisamos de continuidade. Mais do que escolher entre grupos, precisamos de uma mente capaz de convergir diferentes movimentos em um sonho ainda mais coletivo. Em vez de criticar o mundo atual, o momento é de reconhecer nossa liberdade de construir um novo mundo. Parece óbvio, mas não temos ideia de nossa força coletiva — ainda nos sentimos impotentes, atados, apáticos.
‐ Gustavo Gitti, É hora de sonhar coletivamente

Vivemos num mundo em boa parte sonhado por nossos antepassados, qual o nosso? Com tantas possibilidades, qual nossa aspiração mais elevada de um mundo possível?

Já temos ideias e produtos demais. Não precisamos de mais conteúdo. Precisamos de mais visão e autonomia. Imaginemos um mundo cada vez mais sem respostas, aberto a escuta, atento aos detalhes, investigativo. Imaginemos um mundo com cada vez mais espaço e vontade de compreensão, onde o cultivo de qualidades básicas é uma prioridade.

Meu desejo de coração para esse novo ano é só esse. Que possamos sonhar mais amplo e coletivamente, e sentar para expor e debater nossas prioridades, mesmo que a conclusão seja de que não sabemos quais elas são. Só essa honestidade já é um grande começo.

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