Onde eu aprendi a ver

As vezes, quando o sol vem forte pelo céu limpo e o vento do norte é gentil, escuto o mar bem próximo, suavemente deslizando na areia. Mas logo em seguida me lembro que o mar, esse mar que eu escuto, está muito longe e são apenas os carros ritmados na avenida.

De vez em quando, me lembro que esqueci como é o cheiro doce e sedutor da mata atlântica, essa floresta gentil com nome bonito de mar. Não digo nada, acho que as pessoas daqui não vão entender quão agressores são esses prédios e esses cinzas pra quem aprendeu a ver diferenciando verdes em folhas grandes e pequenas, notando mandalas em maracujás misteriosos que cresciam perto de areia branca. Eu mesmo não entendo, até lembrar que aprendi a ver texturas nas pedras roxas cheias de bixinhos quando o mar estava lá longe.

Aqui também tem sua beleza, que eu descubro aos poucos. Mas é uma beleza cruel, de pedras negras no chão e o sangue quase mensal nas calçadas. Beleza de gritos na noite e as cores que parecem estar todas no céu. Beleza de névoa baixa e clara que lhe arranca os dedos se você não prestar atenção.

Se antes aquele cheiro esquisito de mar era tão intenso que eu até esquecia de mim, agora preciso me lembrar muito bem. Preciso me construir, me armar, para com muita calma e sensibilidade ir encontrando a poesia desse lugar.

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