Um pequeno diário sobre observar o mundo

Introdução

Nas viagens entre Alto Paraíso e Brasília, quando eu era bem pequeno, me davam um saco praticamente do meu tamanho daqueles salgadinhos de isopor. Só com a minha boca ocupada se tinha uma viagem em silêncio.

Meu traço de personalidade mais óbvio desde pequeno é esse interesse por questões existenciais e uma certa eloquência para comentar sobre elas, ao mesmo tempo e pareado com uma incapacidade de parar de analisar, de me perguntar por que, de discursar infinitamente e sem controle sobre tudo. Na minha família são muitas as histórias de como desde cedo eu conseguia manter conversas sérias com adultos, mas também de como eu praticamente induzia familiares à apoplexia nervosa com minha fala torrencial ininterrupta.

Aprender a cultivar minha sensibilidade e extrair meus pensamentos de forma produtiva sem perder o controle tem sido um dos eixos centrais da minha vida. Foram anos de meditação, crises de ansiedade e reflexão para aprender a parar e acalmar os pensamentos e o corpo.

O que eu não esperava era que no espaço deixado vazio pelos pensamentos que subsidiaram, o mundo iria entrar e preencher em detalhes cada vão. Nem como a arte, e a história daqueles que buscaram faze-la, seria tão poderosa em me auxiliar a ver o mundo.

Cores

Primeiro foram as cores. Na aula de teoria de cor tivemos que com tinta guache fazer um círculo cromático, começando com as primárias ciano, magenta e amarelo, e combinando-as, todas as secundárias e terciárias. Para fora do círculo, adicionando branco, seus tons menos saturados. Para dentro do círculo, cautelosamente adicionando a cor oposta, os tons mais escuros de cada.

Demorei doze horas ao total para terminar. Encontrar o tom certo é difícil não por ter que misturar as tintas na proporção certa, mas por que é muito difícil ver cor. Nosso cérebro tente a correr, e esbaforido dizer "é verde". Mas verde é uma palavra, não uma cor. Para ver as cores você tem que esquecer as palavras.

Depois de oito horas consecutivas pintando, terminei e notei como me sentia alerta e pleno, como esquecer os nomes e apenas ver me acalmava, exatamente como uma boa meditação. Voltando para casa passei no pequeno mercado da rua e pela primeira vez, e com muito espanto, notei que uma lata de fanta-laranja não era exatamente laranja, mas um laranja-avermelhado bem específico. Achei aquilo mágico.

Aos poucos meu mundo foi ficando mais amplo. Comecei a ver como era intenso o tom de roxo quando o céu azul de um novo anoitecer recebe as luzes laranjas dos postes da cidade. As cores me levaram até as luzes, e notar que toda luz tem alguma cor, e esquecemos disso, e vemos só a luz, mas uma versão raquítica e abstrata, sem cor. Tente perceber que cor é a luz de um corredor, ou um quarto, e note as centenas de tons que existem, e como várias luzes artificiais começam meio verdes e vão se esbranquiçando conforme esquentam.

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Paisagens

No auge da depressão, tinha sonhos vívidos e silenciosos de grandes paisagens intricadas. Montanhas rochosas cobertas de pequenas plantas misteriosas e brumas impossíveis em cenários ensolarados, índios mudos e decorados, céus enormes com muitas luas. Eu não sabia, mas era a forma do meu subconsciente se livrar um pouco de mim e respirar. Se acordado minha mente girava atormentada em culpa, medo e expectativa, os sonhos eram como um filme sem personagens, apenas o espaço a as formas se manifestando livremente. E era belo, sinto falta desses sonhos.

A primeira coisa que notei ao começar a meditar seriamente foram os sons. Não dá para ouvir o que acontece lá fora se tem sempre alguém falando na sua cabeça. Da mesma forma, se há sempre uma profusão de imagens e lembranças se amontoando na consciência, não dá pra ver a paisagem. A metáfora budista é a do lago: só com as águas calmas ele reflete o céu. Então começar a ver a paisagem foi simbólico de que eu começava a melhorar.

Nuvens

Desde quando notei que dava para ver o sol se pôr, caótico e efervescente, pela minha janela, tenho prestado muita atenção no céu, nas suas cores e tudo aquilo que o modifica. No começo foram os pores-do-sol e amanheceres, que aos poucos me levaram até os tons de azul do dia, e finalmente, as nuvens.

Agora sou constantemente arrebatado pelo que vejo, perco o ponto do ônibus, fico transfigurado por degradês de prata para o azul servindo de pano de fundo para pequenas coletâneas de nuvens, deixo de atravessar a rua para tentar absorver os tons do horizonte. Observo por horas, atento, os raios iluminando grandes tempestades de dentro para fora.

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Sábado, 6 de Novembro - Pisa, Itália

Na parte de trás do pequeno trem que vai até o aeroporto, acaricio a paisagem procurando linhas e composições, meu olhar era baixo e distraído. Olhei o céu e devo ter dado um pequeno suspiro contido.

Era como se um romântico flamengo tivesse pintado nuvens lânguidas e exuberantes sobre um disco brilhante de prata, bi-dimensional, dramático e profundamente interessante. Eu olho e o mundo se transforma, permaneço perplexo. O mundo agora não é só trens bem iluminados e voos imanentes para a Alemanha, agora tem novas nuvens e isso muda tudo.

Interlúdio

Cada nova coisa que descubro conseguir ver é como uma isca tentalizadora do mundo dizendo: eu sou enorme, você não viu nem o começo. É um jogo de sedução e eu me entrego iludido, palpito pelo romance.

Segunda, 20 de Novembro - Curitiba, Brasil

Curitiba é um bom lugar para se observar nuvens. Não só por que as infames mudanças de tempo da cidade nos oferecem diferentes variedades de formações em um único dia, mas frequentemente temos múltiplas formações ao mesmo tempo.

Hoje vi pela primeira vez nuvens negras. Sempre ouvi a expressão "nuvens negras" e assumi muito naturalmente que fosse uma metáfora ou uma hipérbole. Mas hoje, pelas janelas direitas do ônibus, vi uma enorme massa negra que na ponta se enrolava e terminava abruptamente perto do horizonte. Era pouco depois do meio-dia, e logo onde ela acabava o céu estava azul-claro com pequenas nuvens brancas. O contraste era claro, a constatação inevitável: não estava escuro, as nuvens eram realmente negras. Do branco puro ao preto completo provavelmente ficavam um pouco depois do meio do caminho. Eu nunca soube que nuvens poderiam ser assim tão escuras.

Cores

Depois notei de súbito que lembro em cores. Boa parte das minhas memórias visuais de infância são borrões como em um sonho, talvez muitas sejam sonhos, mas as cores são claras e perfeitas. Esqueço rostos, mas não o tom da pele, esqueço o nome e o autor do livro, mas nunca a cor da capa.

Há algo poderoso em notar como podemos nos contentar e apreciar as cores por si apenas. Paisagens podem evocar histórias inteiras e fazer parte de alguma narrativa interna. Apreciar a cor pela cor nos remete mais puramente à capacidade ininterrupta, mas quase sempre oculta, de nos envolver e nos contentar com o duplo mistério que são as coisas existem e nós estarmos aqui para vê-las. Acho que sou um dos que choraria ao ver um Rothko.

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