Pela janela aberta para o vento morno, o monumento da miséria

Comprei uma cortina de duas peças mas coloquei a segunda no outro quarto, então sempre tem luz demais aqui. Dormindo nessa luz ela é especialmente apreciável. Seu rosto é muito bonito, e dos dois lados! Admiro esses seres com rostos simétricos. Se bem que não somos assim tão próximos pra se justificar essa ternura barata de ficar vendo alguém dormir.

Tenho um espremedor de laranja que nunca usei, nem sei se funciona. Ela me disse que adora suco de laranja, e no mercado uma saca estava na promoção, então comprei. Faz tempo que não tomo suco de laranja, as vezes ele corta minha boca e fico arrependido de não ter tomado café. Quase sempre me arrependo de não ter tomado café.

É bom ter alguém para quem fazer suco de laranja. Sozinho jamais conseguiria justificar o trabalho e a bagunça que faz, mas parece que a bondade justifica o inútil. Gosto de fazer suco de laranja, o líquido amarelo-vivo escorrendo pelo coador, e parece luxuoso gastar tanto só para jogar metade da fruta fora.

Está bem mais quente que eu esperava, um dia lindo com nuvens bem esculpidas baixinhas no horizonte, parece que vão tocar o prédio que se vê estando na janela da sala. Estando em qualquer janela na verdade, já que ele cobre toda nossa vista. É um prédio feio esse que dá pra se ver de qualquer janela, com manchas de cinza claro crescendo metastásicamente sobre o cinza escuro do concreto exposto. Prédio esse sempre em reforma e sempre com gente meio carcomida brigando.

Batizamos ele de Monumento da Miséria. De vez em quando finjo que é um Monumento mesmo, uma obra de arte sofisticada para nos conectarmos com o sofrimento humano.

É um dia lindo, especialmente se você reparar nas nuvens e fingir que o prédio feio da frente é uma escultura artística importante. O medidor diz que estamos próximos dos 400ml, isso dá um bom copo né? Acho que não quero suco, vou fazer café. Falando em café, café-da-manhã na cama não pode ser só café, e não sei o que tenho de comida. Eu nem sei o que ela come no café-da-manhã, parece ser essas pessoas que estão sempre de dieta.

Tem pão, pão bom da padaria da rua, e manteiga, manteiga normal do mercado. Pão com manteiga é sensacional, mas puro carboidrato com gordura animal. Mas o que são duas bandas de pão, 20 gramas? A gente transa mais uma vez e acho que dá pra queimar as calorias de duas bandas de pão. Falando em transar, ontem de manhã tive que fechar, da melhor forma possível, a única cortina, isso bem no meio da transa. Não por que provavelmente dá pra ver algo do outro prédio, mas por que ele é muito feio, é broxante. Se me preocupa broxar com um prédio feio? Sim.

Eu gosto de fazer café da manhã. As vezes é bom fazer algo de bom sem estar olhando na cara da pessoa. Ontem ela olhou para o lado e me viu, e fingi que não notei e continuei dormindo. Ela estava agitada e sei que precisava de alguma coisa. Um beijo talvez, um dormir de conchinha. O que acontece quando alguém precisa muito de você que é tão repugnante?

Sua imagem na minha memória rapidamente mudou após seu toque virar um pedido e não mais uma dança. O toque que pede é como uma lixa, não acolhe, é áspero e desconfortável. Agora olho pro rosto e até esqueço a simetria, vejo só minha implicância com a súplica. Mas é bom fazer café da manhã, oferecer algo sem ter que de fato correr os dedos pela lixa.

Entro no quarto, ela já está meio acordada e se senta. Provavelmente o espremedor enrustido acordou dois ou três andares. Coloco a bandeja na cama e digo gentilmente "café da manhã, pra você!".

Ela sorri, com todos os dentes, e todos eles simétricos. Eu não tinha notado os dentes também simétricos.

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