Maio / Piruetas Sensatas

Eu sabia que, em algum lugar, em algum formato, havia um rastro. E que se eu encontrasse esse rastro, e eu, eu...

Eu queria falar, eu queria te contar sobre essa nova coisa, sobre isso deu sair na rua e ver tudo assim tão bonito, tão fresco, tão perto. Mas eu queria te contar assim para você ouvir, e eu não sei bem onde você está, que palavras usar.

Eu queria lhe contar da liberdade, essa nova liberdade, não de poder fazer qualquer coisa, mas de não precisar fazer mais nada. De olhar pro céu, sentir o vento frio e dizer "estou aqui" e não ouvir resposta, e tudo bem. Eu queria dizer algo sensato pra você ouvir.

Ontem eu vi meu antigo prédio pela outra rua, ele todo laranja-fim-de-dia, e parei na calçada, e acho que gosto mais do parar na calçada que do prédio iluminado. Entende? E te mostrei fotos e você fez "uhum" mas você não entendeu.

É como se fosse, sabe, um sonho, assim muito difícil de descrever. E eu posso contar toda a história com todos os detalhes mas a mágica não passa, a mágica fica só comigo, e dai eu me movo daqui pra lá e ela vai embora de mim também. E daí ela volta, em outro formato, fazendo outra pirueta, com outra composição e orquestra, e eu nem consegui te dizer sobre o sonho.

Então eu te chamo para tomar um café, comer bolo, ouvir a rua, e te contar dos novos sonhos. E as vezes eu acho que a mágica passa. Mas se eu não sei que palavras usar, acho que também não sei que palavras escolher ouvir. Por que você ainda está aqui?

Você me fala e fala sobre essa nova coisa, sobre essa orquestra, essa composição, imensa, voraz, e monstruosa. E eu entendi por que passei por isso também, e queria dizer "mas olha tem flores também". Mas eu não sei escolher as palavras, e no geral a mágica não passa. E daí a gente toma muito café e come muito bolo e eu fico tentando fazer outras coisas com as suas palavras. Pintar um quadro, fazer um curta que sabe.

Quem sabe daí eu consiga ouvir a música de fato, e dizer algo para você, algo sensato. Algo como um estalo de beijo no rosto, algo como café e bolo, essas coisas que deixam a gente diferente, que despertam por um minuto ou dois do sonho ruim. Essas coisas que interrompem a orquestra dizendo "pera lá pera lá, muito bom muito bonito mas um minutinho para o café" e você vê que foi sempre meio-sonho, que agora dá pra levantar e ir pra casa.

Acho que é isso. Eu queria te chamar para ir pra casa. Segurar sua mão e andar na rua bonita e ser só isso e saber que estamos indo pra casa.

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