Kintsugi, ou As Tôrres Gêmeas

Deitados no chão sussurrei em seu ouvido "I love you". O inglês era meu idioma de confissões. No chão daquele apartamento, debaixo de um lençol fino, acho que sorriu e lembro dela dizer: "foi bom ouvir, tinha medo".

Haviam muitas pessoas e muitas histórias naquele quarto, então sussurrávamos para quase não ouvir e minha mão entre suas pernas era lenta. "Assim?" e ela puxava meu pulso mais pra cima, um pouco pro lado.

Eu disse em inglês e hoje me arrependo, ela não fala inglês e assim não vale, não é a mesma coisa. Eu me arrependo pois foi a primeira vez que eu disse e não foi de verdade. Foi a última também, a última em inglês e a última pra ela.

O único ônibus do meu bairro passava na frente do prédio onde eu disse "I love you" para uma garota pela primeira e última vez. Ela era só uma garota e agora acho que é uma mulher. A garota eu amei bastante, mesmo só dizendo uma vez e em inglês; a mulher não conheço muito bem.

Quando eu estava indo no lado que dá para os dois prédios idênticos, tentava não sentir saudade da profunda melancolia daquela noite. Da noite em que eu soube e disse para uma garota que a amava, e de manhã sentados na calçada soube também que nunca seria um relacionamento de verdade. Ou melhor, seria dolorosamente de verdade, mas eu queria um bonito.

Eu tentava não sentir saudade e falhava todas as vezes. Hoje quando volto para visitar, o taxi passa de madrugada em frente aos prédios gêmeos e sinto aquela saudade densa que só aparece quando é madrugada. Saudades não tanto pela garota, mas por aquela noite, por mim, ingênuo, perguntando "assim?" e dizendo "eu te amo" em inglês.

Posfácio

Eu passei de novo, muitas vezes, pelos prédios. E notei só depois que não são gêmeos, na verdade a sacada de um é monstruosa como ele todo é e me lembro de ser. O outro é quadrado e bem mais normal. O que nunca mudou foi a sensação. O vão imenso no meio dos corredores, fumar nas escadas redondas, encenando um afastamento, ela vir me buscar, deitarmos no chão, o lençol fino por cima, o chão duro por baixo e nós dois no meio desse mundo muito particular.

E de ser nesse lugar, de todos os outros, que eu disse pela primeira vez. Num prédio monstruoso, onde fumei casualmente na escada, e fui levado pela mão para deitar no chão.

É um fragmento, e é importante por que é peculiar, eu concluí depois. É sobre estar vivo, e saber que se está vivo, já que me esqueço. Histórias de amor tem muitas, mas naquela noite no prédio monstruoso, no chão duro do quarto cheio, só a nossa. Ou só a minha. E é isso que sempre me pega, isso de que se estar vivo é estar agressivamente associado a particulares, agindo particulares. Amor mesmo não existe, o que existe é deitar no chão duro sob um lençol branco e fino e dizer alguma coisa, e o que você faz com isso.

E o que eu queria dizer, naquela noite nem fria nem quente numa cidade em verão perpétudo, o que eu queria dizer sussurando em inglês, no prédio monstruoso, era que achava mágico todos aqueles particulares e muitos outros, que eles me tocavam, e que eu ia lembrar deles pra sempre, e que eu tinha razoável fé de que amor era isso aí, de ver os particulares todos, conta-los, coloca-los no colo e proferir: isso é maravilhoso.

E se esse for caso, como acho que seja, então um "I love you" assim sussurado pra quem não fala inglês, é sincero e triste, como um relacionamento de verdade, mas que eu queria que fosse bonito.

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