Dos mitos que fazemos de nós

I - Monumentos

Tenho corrido as vezes a tarde, mas não tanto agora que está frio. Hoje mudei de rota e, de repente, estava no pequeno monumento que ficamos sentados e conversamos pela primeira vez coisas que nunca me lembrarei. Pra quem vive de memórias, o álcool é sempre um erro.

"De um a dez, quão bom é seu beijo?". Resquício de uma época em que eu sentia precisar de formulas e frases prontas. Mas esse é tosco e eu gosto. Você disse um número que eu não lembro por que essa parte da transação é irrelevante e te dei o primeiro beijo ali na rua, em pé, e notei pela primeira vez como você era alta e achei emocionante. Achei também que valia mais do que o número que tinha dito, seus beijos sempre e inexplicavelmente mais dengosos e apurados pelo álcool. E você sempre gostou de álcool.

Já não bebia a um tempo, não via sentido, pra alguém que vive de memórias. Mas achei irresistível a ideia de em uma festa ruim dividir uma garrafa grande demais de vinho pior ainda com uma menina alta e alegre. Curioso como as coisas podem começar com vinho barato e terminar com gente chorando em rodoviárias.

Estava sem ar e não li direito, acho que era algo sobre uma missionária polonesa e o centenário da cidade. E achei que aquilo não fazia sentido, estando entre uma avenida e um bar. Deixei na cartografia da memória uma sinalização, não de monumentos a imigrantes católicas, mas de onde depois do beijo conversamos coisas que eu nunca vou lembrar.

II - Névoa

Era perto do dia dos namorados, noite fria e de névoa, aquelas que você fala e magicamente sai uma chaminé da boca. Enquanto andava notando as ruas escuras encobertas de branco me lembrei que a primeira vez que vi névoa se esgueirando pelas esquinas da noite foi exatamente à um ano atrás e com você. E me veio lentamente uma suave melancolia por saber que isso nunca mais se repetiria. De ver névoa pela primeira vez, ou estar com você.

Sentado ao seu lado, bêbados e alegres, notei que da sua boca vermelha por meus beijos mordiscantes, saia uma fumaça suave e branca que logo se desfazia no vento. Passamos os próximos muitos minutos soprando e rindo, e eu tinha mais alegria do que via a muito tempo. Seu riso como que de criança, não ficaria bom em outra que não você. Será que ele vai ficar assim besta pra sempre?

Dizendo adeus em meio as malas você chorava e dizia que talvez não tinha sido uma boa ideia eu vir lhe deixar, era demais pra você, eu achei aquilo incrivelmente bonito e sabia que era mentira. As pessoas olhavam e eu não consegui chorar.

Muitas vezes imaginei aquela rodoviária e ver você voltar com malas ainda maiores. A imagem daquela rodoviária me confortava e eu tentava não contar os dias e pensar quanto tempo demoraria, quando pareceria certo, como seria a sensação de um dia casualmente dizer que te amo. Mas eu não fui lhe buscar.

Digo que a saudade é um erro e ao mesmo tempo me entristece não saber descrever como vou sentir falta de tropeçar bêbado pelas calçadas tortas do centro com você.

Ainda tenho os créditos do Skype que comprei para te ligar. Tantos créditos, só agora noto como eu planejava ligar muitas vezes. Você chorando pela segunda vez e dizendo "não era pra ser assim". Respondi que estava tudo bem, que a vida não tem solução. Essas coisas que sempre digo. Só depois solucei aquele choro dolorido que se acomete quando não se quer acordar as pessoas da casa. Só muito depois me permiti sentir que seria bom um dia chegar a dizer que te amo. Tantos créditos e uma só ligação.

III - Despedidas

Te ver não pareceu real, ainda não parece. Não fui lhe buscar e parece que algo não voltou. Mesmo assim, todas as vezes me anima te ver e tento disfarçar que quero te abraçar longamente e perguntar assim como se o tempo para ouvir fosse infinito "Como você está, de verdade?". Aquele tempo infinito que se tem quando as pessoas acabaram de voltar. Me alegra te ver e achar que você voltou.

Mas não fui lhe buscar nem beijei nem abracei longamente. Exatamente como se você nunca tivesse voltado. Talvez em alguma esquina da Fifth Avenue junto com as cartas que você não mandou tenha ficado algo, algo que não voltou.

Eu nunca perdi ninguém. E nada me entristece mais que essas rodoviárias e ver as pessoas nunca voltarem. Delas sentarem ao seu lado sem nunca terem voltado. De se encontrar mais de alguém em cartas e fotos do que tentando perguntar "como você está?". Mas de você não tenho cartas, nem fotos. Só você, que nunca voltou.

Escrevo esperando não ser uma tentativa de lhe ter mais um pouco. Escrevo para honrar a memória, para me conceder o direito de deixar ir. Abrir espaço para as novas noites, quem sabe frias, quem sabe com névoa, mas lastimavelmente menos trôpegas.

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