Espaço, silêncio, curiosidade: sobre ter conversas profundas e conexão humana

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Monsieur, Madame et le Chien - Henri Toulouse-Lautrec, 1893

Já teve a sensação de precisar falar algo e a conversa estar tão agitada, saltando de tópico em tópico, que parece nunca ser propício dizer algo mais difícil de se responder ou processar?

Se eu preciso falar algo difícil (aquelas frases emboladas que precisamos polir pra passar pela garganta) e nossas conversas nunca são calmas e pausadas, se nunca há um silêncio confortável que se pode interromper, não dá tempo de polir. Eu acabo não falando, e a frase fica pra sempre embolada em algum lugar do peito.

Se eu lhe falo que certas coisas da minha infância ainda me machucam, e você está pensando em algo, as palavras não entram. Ou pelo menos não todas elas. Tem de existir um espaço na sua consciência para as minhas palavras repousarem. Só que a gente no geral não para, nem por fora nem por dentro.

Na lista de pequenos paradoxos do cotidiano eu colocaria bem proeminentemente o fato de que em relações humanas, há de ter uma boa dose de silêncio e espaço para se ter escuta e conexão.

Às vezes falar muito funciona como uma cortina de fumaça, preenchendo os sentidos e a cognição para obscurecer que falta um certo contato, um olho no olho, uma pergunta profunda de "quem é esse ser que está comigo agora? O que se passa em sua existência?".

Família

Notei que em um lado da família, enquanto todos jantam calmamente, posso quebrar o silêncio com algo íntimo e não há espanto, e sim uma pergunta bem colocada. Era um silêncio que preconizava um certo espaço, um espaço em que caberia minha súbita lembrança dolorosa, ou em outro momento uma conversa franca sobre como uma notícia caiu mal e afetou todo o dia.

No outro lado da família não lembro se alguma vez houve silêncio na mesa de jantar. Tem sempre um uma TV com o jornal, a série, a novela, um rádio com o jogo ou a notícia. E nas grandes reuniões, longe de eletrônicos barulhentos, é uma cacofonia de familiares se indagando e atropelando, com piadinhas e mudanças abruptas de assunto. Um tiroteio de ideias.

É um caso onde a falta de silêncio indica a falta de espaço, e o resultado é que sei muito mais e melhor sobre uma dezena de amigos, esses que converso pausadamente e com um café, do que sei de boa parte dos parentes. E parece que no convívio familiar, essa falta de acesso à vida intima e psicológica do outro dá lastro para a fofoca. Fiquei sabendo de tabela e por sussurros da traição de um ou da súbita necessidade de tomar ansiolíticos de outro. Fofoca é a versão mesquinha da curiosidade. Fofoca é curiosidade egoísta, você quer saber para seu entretenimento, não para entender ou ajudar o outro.

Não é triste que não se pode chegar em um parente próximo, cuja existência e decisões de vida foram literalmente necessárias para sua presença no mundo, e perguntar: oi, a gente vive conjuntamente e por breve período nesse mundo que ninguém sabe por que existe e para onde vai, o que se passa na sua existência que você agora precisa de remédio para a ansiedade?

Existe esse grande mistério que ronda tudo desde os dias incontáveis, e não dá pra se falar nem de pequenas emoções. Assim fica muito mais difícil existir.

Drummond em sua bela ponderação sobre habitar o mesmo espaço, tempo e cultura e não forjar a conexão.

Ignorância: não vemos as possibilidades

É muito difícil dizer algo íntimo ou abstrato (ou íntimo e abstrato) se o outro nunca se abre ou toca nesse tipo de assunto, seja dizendo algo vulnerável ou comentando sobre questões humanas difíceis. Parece que com algumas pessoas a conversa está condenada a nunca sair do ordinário. Mas não qualquer ordinário, a vida mundana tem profundidade suficiente para infinitos romances e trabalhos filosóficos, digo o ordinário neurótico, sempre com as mesmas perguntas e as mesmas respostas.

Conversas ordinárias no geral tem relação direta com a ignorância. Ignorância no sentido de ignorar mesmo. De quando não se vê e não sabe que não vê. Se não temos conversas profundas com pessoas com quem há anos convivemos ou temos muito em comum, provavelmente é por que não visualizamos a possibilidade de ter esse tipo de conversa. Nos falta abrir o espaço, deixar claro que assuntos pessoais, íntimos, abstratos e existenciais podem ser introduzidos, que aquela conversa tem um espectro de possibilidades maior que antes era visto.

O mundo interno

Algumas conversas ordinárias são necessárias por questões de logística. Mas nunca surgir uma dúvida ou curiosidade a respeito da existência alheia, do que exatamente significa que alguém está "feliz com a nova casa" ou "preocupado com o filho" não me parece uma conduta humana saudável a longo prazo.

Aceitar que toda aquela experiência humana cabe em uma frase de duas ou cinco palavras é ignorância. O que está faltando então? O que falta é o mundo interno. Nas descrições de evento e notícias diárias se tem apenas os fatos, a informação bruta: "meu filho se formou", "terminei o namoro, estou mal".

Nesse tipo de conversa falta a experiência do ser com o evento. Que é o que interessa para se entender o mundo do outro e conseguir se sensibilizar para sua experiência.

Um "passei no vestibular, estou muito feliz" pode ser "passei no vestibular, estou muito animado com o que está por vir, e aliviado também, tinha muito medo da reação da minha família se eu falhasse, eles são muito críticos e não sei lidar bem com isso".

Penso se essa nossa forma usual de comunicação não tem a ver com os altos índices de sensação de solidão, depressão, e suicídio. Sempre me espanto com a quantidade de famílias de suicidas que dizem que não suspeitavam de nada. Muitas vezes não é por mal, nossa cultura não nos prepara para conversar profundamente, muito pelo contrário.

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