As cores e a pulsação do tempo

Pouco tempo atrás, conversando com uma amiga, notei que lembro em cores. Minha memória nunca foi digna de elogios e depois dos tormentos do inicio dos anos 10, tenho tido muitas dificuldades de lembrar de histórias e sensações antigas, mas por alguma razão, lembro bem das cores.

Deitado vejo os vultos, os traçados negros em areia fina e branca em meio as grandes estátuas verdes da floresta nova perto do imenso mar azul.

Lembro bem do esbranquiçado difuso e imenso, o sol do meio-dia. E meu preferido, aquele que me abraça e me lembra de casa, o laranja quase vermelho, enrugado, vacilante, como se fosse cor em ritmo: as ruas de barro exposto brilhando ao sol forte.

As grandes esculturas roxas de pedras perto do mar as vezes azul, as vezes esmeralda.

Os beges cansados e aborrecidos porem tenros das minhas escolas, os tons quentes suaves entrando pelas janelas gradeadas enquanto o dia ia anoitecendo.

O camada intensa de laranja que se apregoava em tudo quando era noite na rua e os postes antigos eram lei.

A pele e os cabelos da minha mãe, mais morena naquela época. Aquele marrom bonito de coisa bem viva. Meu padrasto avermelhado, um vermelho também de muita vida muita presença.

As frutas, tantas frutas, os cajus grandes com de amarelos suaves quase desaparecendo, e os outros menores em dezenas de tons de vermelho e púrpura.

As noites azuladas iluminadas pela luz da lua e o tom de branco mais puro que eu conhecia: o da lua-cheia.

E quando descobri que os rosas eram as cores mais arrebatadoras: nos seios das meninas.

É como se elas finalmente, fundamentalmente, me conectassem com o resto, com essa força, essa pulsão de tudo que teima em existir e preencher o tempo e o espaço. É, estranhamente, a minha ponte para o manifesto.

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