Agitação, ansiedade, neurose: mecânicas modernas de aprisionamento

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Weeping Nude - Edvard Munch, 1913-1914

I

Subindo as escadas que levam a casa, a pedra molhada pela chuva de fim de tarde, eu só conseguia pensar em quão mal me sentia. Essa era a única coisa que conseguia pensar havia meses. Meu irmão pequeno escorregou nas pedras, e sangrando pelo tornozelo começou a chorar. Estando logo a frente dele, me virei, e atônito, notei como não conseguia sentir nada. Nenhum sentimento de preocupação ou ternura. Minha mente estava preenchida pela minha própria preocupação, e enquanto ele chorava a voz incansável repetia:

"O que você vai fazer Bernardo? Você sofre demais, o que vai fazer? Você precisa fazer alguma coisa. Você precisa fazer alguma coisa sobre a sua dor. Você precisa de uma solução. Isso é horrível Bernardo. Isso é horrível. Você precisa fazer alguma coisa."

Eu fiquei ali, estático e horrorizado com a realização do estado mental a qual havia chegado. Enquanto minha mãe descia as escadas para acudir meu irmão, dei as costas e fui para o meu quarto. Tranquei a porta, e tive meu primeiro ataque de pânico.

II

A nossa mente gira acelerada porque nós estamos buscando saída e aquilo naturalmente já é a perturbação. Enquanto nós estamos focados intensamente buscando uma saída, a gente passa por cima dos outros, não vê os outros, tem um comportamento estranho. Uma das características das nossas crises é a gente não ver os outros. Ou seja, a gente está focado em alguma coisa muito específica e no caso da crise nós não estamos tendo vitória nenhuma, nós estamos nos sentindo ameaçados. Esta sensação de ameaça, com a sensação de que não encontramos saída, e nós vasculhamos intensamente as saídas, é a característica de uma crise.
Lama Padma Samten

Ao longo dos anos, minha mente foi aos poucos se reequilibrando, e só fora dos tormentos, olhando para trás, consegui ponderar e analisar que mecanismos me mantinham naquele redemoinho de dor e desespero. Até hoje trato minha mente com muito cuidado, como talvez um joelho operado que funciona normalmente no dia-a-dia, mas tem que-se ficar atento aos seus sinais e usa-lo com carinho.

O que ficou claro ao longo do tempo é que certas visões de mundo eram a base para as neuroses se sustentarem e que certos hábitos têm imenso poder de me deixar mais desgovernado ou mais centrado e lúcido.

O processo da crise de ansiedade dá para se resumir de forma simples: eu tinha uma mente agitada que remoía as coisas freneticamente sem meu controle, e uma insegurança que vinha da infância acoplada com a perspectiva que o meu bem-estar dependia completamente de fatores externos num mundo instável. Praticamente o fósforo e a gasolina.

Sem conseguir parar de pensar sobre minhas inseguranças e medos, o subjacente era que eles eram algo reais, senão eu não estaria remoendo sobre eles, correto? Quanto mais eu remoía mais real parecia e quanto mais real parecia mais eu pensava que precisava remoer, até quase literalmente dar um curto-circuito no meu sistema nervoso.

Parece familiar?

III

Ansiedade é o resultado de uma complicada cadeia de funcionamentos neuróticos e inefetivos da mente junto com visões muito restritas da realidade. Para mim, a ponta que desenrolou o nó foi a agitação da mente. Se eu tenho uma tendência de auto-mutilação mental e cultivo hábitos que agitam minha mente, é como diariamente dar meio bule de café para a criança transtornada que quebra tudo em casa. Primeiro tem que se tirar os estímulos e acalmar a criança para só depois conseguir tratar ela.

Sem perceber, estamos ativamente cultivando agitação e ansiedade. Cozinhamos e comemos com o youtube na tv, enquanto intermitentemente respondemos o whatsapp. Andamos de carro falando alto e com o som ligado. Passamos o dia nervosamente checando a cada tantos minutos o celular. Falamos e enquanto a pessoa responde pensamos em outras conversas imaginárias.

Nossos hábitos modernos de "multitasking" juntos com a tecnologia sempre presente virou basicamente uma anti-meditação. Cultivamos uma mente que salta de coisa em coisa, sem muito tempo para processar e praticamente nenhum momento de silêncio e espaço sem estímulos. Você não é ansioso, você cultivou e foi empurrado a cultivar ansiedade quase a vida toda.

Diariamente tentando fazer muitas coisas ao mesmo tempo, e num ambiente de estímulos constantes, treinamos nosso corpo a estar cada vez mais agitado e reativo. Essa ansiedade que temos é como um mini estresse pós-traumático de guerra: um corpo que se habilitou para estar sempre alerta e energizado e agora não consegue parar. Se estamos sempre pensando em centenas de cenários possíveis, desejando estar em diversos lugares diferentes do atual e de obter um sem-fim de coisas para finalmente poder relaxar, a mensagem que mandamos para o nosso sistema é que precisamos colocar todos os motores em potência máxima, que nossa atenção deve estar alerta o tempo inteiro.

IV

Entra em cena o segundo monstro. Se a mente agitada é a criança transtornada, o bem-estar condicionado é o martelo que damos em sua mão. A maior doença que vejo na era moderna é o pensamento por vezes professado mas, no geral subconsciente de que "só vou ficar bem se".

  • só vou poder relaxar nas férias
  • quando eu terminar a faculdade vai ficar tudo bem
  • preciso resolver meu relacionamento para ficar bem
  • preciso sair da casa dos meus pais para ser alguém na vida

Fazemos de refém nosso bem-estar mais básico e pedimos um resgate altíssimo. Às vezes um resgate irreal, e vivemos sem relaxar.

Junte uma mente agitada que não consegue ser domada com a sensação que se precisa estar em algum lugar ou realizar algo específico para se estar bem ou ser alguém merecedor de valor e se tem o combo neurótico da modernidade.

V

O que acontece é que se internaliza um problema muito novo, cultural e sistemático, e vai se tratar como indivíduo, com terapeutas caros e remédios potentes. Isso quem tem condições, a maioria não tem. Terapeutas e remédios são um problema, mas é como poluir a cidade e investir pesado em bombinhas de asma para as crianças.

Criamos uma cultura e ambientes agressivos aos sentidos, ficamos doentes, e julgamos que o problema somos nós, que a gente não aguenta, que precisamos de tratamento. Precisamos de tratamento. Mas a cultura e nossos espaços também. Poluir países inteiros e querer tratar os sintomas de cada cidadão é incrivelmente ineficaz, e está sendo.

Precisamos aprender a cultivar uma mente lúcida e focada, e a liberar nossa sensação de valor e bem-estar. Precisamos inverter as coisas. É muito mais fácil trabalhar e cuidar de nós e dos outros estando bem e sentindo que temos valor inerente. Precisamos estar centrados para escolher um bom caminho de vida e poder engrandecer a vida dos outros, não o contrário.

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