A Pele Tenra, Cicatrizes e Sangue

Achei que fossem estrias peculiares, mas eram marcas de cortes. Ela me contou que foi com 12 anos por um cara que beija mal, e por isso ela não gosta de beijar.

Eu fiquei imaginando ela com doze anos, sentada naqueles vasos com assento barato e macio da marca tigre, fazendo cortes de 20 centímetros, de um lado a outro do quadril, por um cara que não sabia beijar. E não consegui entender.

Eu tentei me cortar uma vez, pra ver se ajuda mesmo com as crises de ansiedade, usei um grampo afiado. Naturalmente que não fez um corte, mas deixou pequenos rasgos, e deles saíram três pequenas gotas de sangue, uma um pouco maior que a outra, até chegar na última, bem gorda. E eu não consegui entender qual era o benefício.

Tentei cigarros também, comprei num bar na beira da estrada de barro, eu tinha 15 anos, fiquei com medo de o homem se negar a vender, ele nem olhou na minha cara. Era hollywood do vermelho, e não funcionou, eles baixaram minha pressão, deixando aquela pegajosa sensação de impotência e vertigem.

Escondi de baixo das roupas no armário e a carteira mofou, ainda quase cheia.

Faz anos que tenho muitos sonhos violentos, em que eu rasgo a carne de alguém por que é necessário. Há uma satisfação em sentir a resistência do corpo sendo vencida pela faca.

Tinha 14 anos acho, e estava na livraria, um homem me olhava. Gostava dessa livraria, na sessão de artes os adultos me olhavam com apreço. Esse homem era diferente. Fui na outra livraria e ele estava lá também. Fingi ter que ir na papelaria e me assustei em ver ele me olhando do outro lado da estante, que nem nos filmes.

Tinha algo errado, peguei um caderno e fui pagar, ficar na fila para me dar tempo de pensar. Quando chegou minha vez, ele apareceu e se ofereceu para pagar minhas coisas, rejeitei, e ele colocou na minha mão uma carteira verde da OAB, era advogado, disse que estava tudo bem.

Inventei que meu avô estava na loja ao lado e iria me buscar, ele mudou de expressão, pegou os cadernos e disse "que tal às 10 no bar X?". Eu só queria ir embora, disse que sim. Voltei pra casa me sentindo encardido, sórdido. Chorei no banho e sonhei depois em ter ido ao bar.

Ir naquele bar, levar uma faca, sentar nas mesas de madeira da calçada, conversar com ele, levantar e rasgar sua barriga bem redonda, sorrir ao sentir o sangue escorrer, deixar ele na calçada, as pessoas em pânico. Eu teria vencido.

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