Drama e Violência em 7 Casos da Rua Ermelino de Leão

Depois de dois anos e meio morando na Ermelino de Leão, a infame "rua do gato preto", vamos enfim nos mudar. Há tempos queria escrever os causos locais, então aqui vai, uma eulogia a esse instável pequeno pedaço de mundo.

1. O caso dos Playboys

Voltando da primeira Me Gorpeia, antes de entrar pelo portão do prédio, vi uma comoção no cruzamento logo abaixo. Às sete da manhã de um domingo, dois playboys marombas saíam no soco no meio da rua, enquanto uma mulher num salto tão alto quanto era curto o vestido tubinho gloss tentava apartar. Nessa rua, nunca se sabe precisamente o que está acontecendo. Mas a julgar pelos gritos dos três, havia um desentendimento sobre quem tinha o direito de levar a última puta da noite para casa.

2. O caso do ex-presidiário

Descendo a rua e virando à esquerda fica a praça Santos-Dumont, geralmente habitada por moradores de rua, muitos dormindo, alguns tomando Corote, outros fumando crack. Indo deixar no ponto de ônibus uma menina com quem eu saía, bem na frente da praça havia uma pequena multidão e uma ambulância do SAMU em volta de algo. No meio da rua, quatro policiais com dificuldade levavam pelos braços e pernas um homem sem camisa para a parte de trás do camburão. Ele gritava ofensas a alguém e dizia que conhecia seu pai.

Na volta o porteiro me contou que o homem era um ex-presidiário que havia sido solto no dia anterior, e descobrindo que a ex-namorada havia tomado seu ponto de venda de droga, lhe deu sete facadas. Uma moradora reclamava que viu a cena e que ligando para o SAMU, esse demorou 30 minutos para chegar. Incrivelmente, a mulher sobreviveu. Não achei a explicação para o crime particularmente convincente e ainda não entendi o que tinha a ver o pai dela nessa história.

3. O caso do 43

O apartamento 43 fica logo acima do nosso e nele moravam uma mãe e suas duas filhas, uma adolescente e outra criança. O antigo morador havia acionado a polícia para elas duas vezes e cada vez que eu ia fazer uma reclamação no livrinho do condomínio, o porteiro perguntava "o 43?" e dava um suspiro de desgosto.

A acústica desse prédio é curiosa, e nos deixa ouvir mais da vida alheia do que seria confortável. Ouvir mais mesmo dos apartamentos comuns, e o 43 não é uma família comum. A primeira vez que ouvi a voz da mãe, ela aparentemente gritava com o marido exigindo dinheiro e dizendo que precisava comprar um sapatinho para filha.

Ouvir uma mãe pedir dinheiro para um marido ausente, a fim de comprar algo tão simples e cândido seria triste, mas aqui soou errado e absurdo. Nunca ouvi ninguém gritar com tanta ira e descontrole como essa mulher. Pedir dinheiro para comprar um sapatinho infantil usando o tipo de voz que imagino sendo utilizada para clamar publicamente por um genocídio dá um desconforto na alma.

O segundo caso foi por volta da uma da manhã, acordei com o som de gritos, móveis sendo derrubados e objetos espatifando nas paredes. Interfonei para o 43 e ouvi uma mulher arfando me dizer que estavam movendo um sofá mas já tinham acabado. Claro. Achei intrigante parar uma briga para atender o interfone e me responder de forma tão civil. Depois descobri que podíamos escrever num livro do condomínio, em que cada três reclamações resultava numa multa no valor de meio salário-mínimo. Cada multa dobrava de valor e na terceira era aberta uma ordem de despejo.

Devo ter feito ao menos seis entradas no caderninho, todas para o 43. Logo após a última, a mulher foi embora com a criança, deixando o apartamento para a filha mais velha. Essa prontamente trouxe o namorado para morar junto, mas essa é outra história.

4. O caso do Elevador

Conversando na sala, eu e o Alan ouvimos uma enorme gritaria no corredor, abri a porta e olhando para direita em direção aos elevadores, metade dos moradores do andar já estavam lá. No centro, um senhor curvo sangrava pelo nariz e um saco de arroz jazia esparramado pelo chão. Um homem bem maior e mais novo, o desferidor do soco, gritava algo de dentro do elevador e segurava a porta. Eis que nessa comoção desce pelas escadas quem? A mulher do 43.

Descendo e segurando a mão da filha mais nova, essa muito confusa, a mulher gritou "SÓ TEM LOUCO NESSE PRÉDIO!" com sua infame voz de ódio por toda existência. Achei aquilo engraçado. A porta desse elevador passou uns bons dois anos sem fechar direito. Me disseram que o homem maior e mais novo tinha problema com drogas, mas não me explicaram por que ele esmurrou um senhor de idade.

5. O caso do vizinho ao lado

Ao lado do prédio, há uma pequena casa no fim de um longo terreno retangular. Pouco vi ou ouvi das pessoas que moravam lá, até que numa calma noite de domingo, ouvi gritos de uma mulher vindos de dentro da casa. Ela gritava alto e claro que queria ir embora, que deixassem ela, e uma segunda voz feminina dizia algo de volta, incompreensível do terceiro andar.

Uma voz masculina as vezes dizia algo, e os gritos começaram a ficar cada vez mais altos. Liguei para a polícia, e passei uns bons 20 minutos ao telefone dando o todos os detalhes que eles exigiam. Depois de talvez mais 40 minutos, me interfonaram e disseram que policiais queriam falar comigo. Assim que saí do prédio, o homem da casa ao lado também saiu pela sua garagem, indo de encontro a três policiais.

A rua estava especialmente escura, e ao se aproximar, os policiais pareceram ter silenciosamente reconhecido o homem, lhe deram um cigarro e acenderam para ele. Fiquei no portão do prédio esperando, como me solicitaram, mas algo fez com que eles de repente não tivessem mais interesse em saber o que eu ouvi.

Os quatro entraram na casa, e subi para meu apartamento, de lá os vi preenchendo formulários e conversando, apenas com o homem. Depois de alguns minutos, foram embora, e os gritos continuaram. Liguei de novo e recontei o caso todo, ninguém veio. No dia seguinte, a família foi embora e nunca mais vi ninguém.

6. O caso dos cachorros

Quando o homem da casa ao lado e sua família foram embora, começou uma segunda história: a dos cachorros. Eles foram embora e deixaram os cães na casa. Alguém vem e os alimenta, já que isso faz mais de um ano e ainda estão vivos. Mas se os dois cachorros já latiam a ponto de incomodar, deixados sozinhos na casa começaram a fazer muito mais barulho.

O cão maior ladrava do meio da manhã até o meio da tarde, com apenas pequenos momentos de descanso, sinceramente, um impressionante potencial pulmonar. A síndica, já tendo ligado para o serviço de proteção aos animais e a guarda municipal, não sabia mais o que fazer, ninguém sabia. Eis que entra em cena um criativo e maquiavélico morador do segundo andar, que começou a jogar bombas no teto do canil.

Às dez da manhã, estando o cachorro latindo desde as nove, explodia um rojão. Todo mundo colocava a cabeça pra fora da janela, ninguém via quem foi que jogou. O cachorro se calava até as três, quando vinha outra bomba e dessa vez ninguém se dava o trabalho de olhar. A síndica, enfurecida, estando no processo de instalar câmeras de segurança no prédio, colocou uma no telhado da garagem mirando diretamente para as janelas do segundo andar.

Ou o maquiavélico não notou as câmeras, ou não ligou, e as bombas continuaram. Acontece que os cachorros estavam adquirindo imunidade a elas, voltando a latir cada vez mais rápido. Ou foi pego ou desistiu da tática, mas os cães estão latindo até hoje.

7. O caso do neo-nazi

No quinto andar do prédio morava um neo-nazista. Descobri no dia após uma briga feia na portaria, me mostraram as gravações da câmera de segurança e me contaram em detalhes o caso. Ele estava irritado por algo que uma vizinha havia feito, e já saiu do elevador xingando a porteira de vadia, e a síndica, mãe da porteira, foi confronta-lo, nisso ele a empurrou e daí começou uma briga desgovernada. Socos foram dados, nomes foram chamados, e a síndica, tendo levado um soco na têmpora, foi bater no hospital. A briga acabou quando um morador chegou, abriu o portão, e o homem com sua namorada foram embora e nunca mais voltaram.

Me contaram que esse homem é um antigo morador do prédio, infame por constantemente se envolver em brigas, por seu nervosismo e descontrole. Disseram que é neo-nazi e passa os dias em fóruns online sobre o assunto, frequentemente ofende moradores negros ou gays, tem distúrbios mentais sérios e problemas com bebida, e é sustentado por uma vó abastada que mora em copacabana.

Quanto mais os moradores conversavam, mais ficava claro pra mim que boa parte dos conflitos bizarros que vinham ocorrendo no prédio tinham como ponto central esse homem. Umas semanas antes desse ocorrido, o Alan chegou em casa perguntando se eu sabia por que tinha bastante sangue no corredor, eu não sabia. Ocorre que uma das moradoras, que é psicóloga, estava acompanhando e oferecendo ajuda a esse homem, e ele em algum ponto se voltou contra ela e começou a lhe ameaçar de morte. Encontrou um dia com o marido dessa mulher, iniciou uma briga com ele, e quase foi espancado.

Conheço o marido dessa mulher, e no dia depois do ocorrido da portaria, ele falou baixinho "devia ter matado".

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